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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012
" Economia Portuguesa: as últimas décadas"


"Economia Portuguesa: as últimas décadas", da autoria de Luciano Amaral, é o livro em destaque hoje.

 

 

Leia na íntegra "cinco perguntas ao autor".



Será que a austeridade vale a pena?


Livro analisa a evolução da economia portuguesa desde os anos finais do Estado Novo até à actualidade. Em entrevista, autor fala do preço a pagar para estarmos na UEM.


O que mais destaca nas últimas décadas?

Destaco o comportamento errático da economia portuguesa, depois da grande recuperação face às economias mais desenvolvidas ocorrida entre os anos 50 e 1973. Desde este último ano que a economia portuguesa alternou períodos de recuperação forte (1977-1980 e 1986-1992) com períodos de estabilização da diferença (1992-1999) e períodos de franca queda (1973-1977 e, sobretudo, 1999-2012). Neste quadro geral, é particularmente preocupante o longo retrocesso que vem do início do século XXI e que já nos fez recuar, em termos de riqueza comparada, à década de 70 do século XX.

 

Os últimos dez anos serão mesmo uma década perdida?

Em termos de evolução comparada da economia, os últimos dez anos (ou melhor, os últimos doze) são realmente uma década perdida. Se em si mesma essa evolução negativa já seria preocupante, é-o ainda mais por resultar em grande parte da nossa participação na União Económica e Monetária (UEM), a qual se apresenta agora como um projecto político e económico difícil de sustentar. Ou seja, pagámos um grande preço para participar nesse projecto, continuamos a pagá-lo agora e provavelmente pagaremos um preço ainda maior no futuro próximo. A grande questão que se coloca hoje, perante o programa de austeridade que está a ser aplicado no país, é saber se ele vale a pena, nomeadamente como condição para continuarmos a participar na UEM. Ou seja, será que vale a pena fazer este esforço para ser membro de um clube que tem graves características de disfuncionalidade e que pode mesmo estar condenado a desaparecer rapidamente? Em breve saberemos, mas a minha opinião é pessimista: se calhar não vale a pena, pelo menos nos termos em que o estamos a fazer.

 

Factores positivos da nossa economia?

Somos uma economia desenvolvida, com mão-de-obra relativamente flexível e pronta a adaptar-se. É uma mão-de-obra cada vez mais qualificada e capaz de reagir aos estímulos que lhe são apresentados. Temos instituições razoavelmente funcionais e que têm melhorado com o tempo.

 

Factores negativos da nossa economia?

Temos uma produtividade relativamente baixa, apesar dos aspectos positivos anteriores. Isto resulta sobretudo de uma baixa dotação de capital pela mão-de-obra existente. Ou seja, precisamos de mais investimento. Na ausência deste, temos de reduzir a densidade de mão-de-obra pelo capital existente, o que infelizmente já se está a verificar através de uma crescente emigração. O investimento aumentaria se as perspectivas de expansão da economia fossem positivas, mas desafortunadamente não o são, porque a nossa baixa produtividade limita a nossa competitividade e porque estamos numa área monetária que não facilita o crescimento das nossas exportações. É ainda um longo caminho, talvez demasiado longo para a situação de urgência em que nos encontramos.

 

Como resume sumariamente a importância desta obra?

Destacaria três aspectos: o primeiro, é que se trata de uma tentativa de fazer um retrato histórico da economia portuguesa desde o 25 de Abril numa linguagem acessível a muita gente. Nesse sentido, grande parte do mérito não é do autor mas dos editores, que impuseram esse formato de forma bastante estrita. O segundo aspecto é que, apesar da sua vocação popular, levanta questões importantes tanto para o mundo académico como político. O terceiro aspecto é que, tendo sido redigida ainda antes dos contornos mais gravosos da actual crise se terem tornado óbvios, levanta os principais problemas e dilemas com que a economia portuguesa se confronta na actualidade.

 

 

 

 

 

Este post também foi publicado no blog:www.livrosemanias.blogs.sapo.pt

publicado por Mafalda Avelar às 05:07
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