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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
"Que todos os meninos tenham reforma"

 

 

 

 

 

"Que todos os meninos tenham reforma"

 

VIVE A MIL. ENTREGA PRESENTES, FAZ IOGA E ATÉ CANTA FADO. REFORMADO, ANTÓNIO FICOU PENDURADO E NÃO FOI NA CHAMINÉ. FOI NA REFORMA. TAMBÉM POR ISSO, HOJE, É PAI NATAL.

 

Era uma vez um senhor velhinho, com barbas muito compridas, cuidadas, brancas da cor da neve, fofinhas como o algodão doce e quentinhas como o pão de trigo, que acaba de sair do forno de lenha da casa da avó. Esse senhor, que está imortalizado na memória de todas as crianças, vivia num reino perfeito onde a lei da procura e da oferta se encontravam num ponto de equilíbrio onde o preço não era quantificável.

 

Um cruzamento perfeito que faz com que todas as crianças descubram na noite de Natal um presente no seu sapatinho.

 

É um ponto óptimo que é atingido numa equação onde tudo é levado em conta, desde os desejos às necessidades das pessoas, ao poder de compra, à disponibilidade dos serviços e da concorrência e à existência de produtos complementares e substitutos. Tudo, tudo lá está contemplado na equação matematicamente traduzida, em linguagem universal, para "emoção de um sonho". Infelizmente, querido leitor, esse reino não existe e a força que comanda o trenó do Pai Natal não é a das renas (bem) dispostas a tudo. A realidade do Pai Natal dos nossos dias é outra.

 

PAI NATAL DOS NOSSOS DIAS

António José Carvalho é Pai Natal. Um Pai Natal tão especial que, por momentos, nos faz esquecer que vivemos num país onde poucos querem trabalhar e os que querem não têm emprego. Um país onde a juventude é cada vez mais velha e onde o ser considerado "velho" acontece cada vez mais tarde. Mas não é o caso. Com 71 anos, António frequenta uma universidade sénior, tem aulas de inglês, francês, teatro, música e ioga. E no meio disto tudo ainda canta fado!

"Chamam-me o homem dos sete ofícios", diz este ex-vendedor comissionista, que "só ganhava se vendia". Hoje continua a trabalhar porque quando, estava no activo, trabalhou com entidades "que não queriam passar recibos. E e eu fiquei pendurado com uma reforma de pouco mais de 400 euros", conta.

 

Casado, um filho, um neto, António Carvalho não nega que adora o que faz: "afinal, gosto muito de crianças". Mas a verdade, deixa escapar, é que "preciso disto (de ser Pai Natal) para ganhar mais qualquer coisa". E fá-lo com alma, engenho e muito profissionalismo. Além do ar de avôzinho, António tem barbas rijas e próprias. "A partir de Abril deixo crescer a barba e corto-a logo no dia 26 de Dezembro. Depois disso entro numa série de outras personagens". Figuras essas que lhe permitem ganhar e sustentar a vida. De palhaço a Deus tudo encarna. No seu 'curriculum' constam mais de 700 participações, 70 das quais com papéis principais.

 

Muitas vidas, muitos sentimentos, ora disfarçados ora verdadeiros, na vida de um homem que deseja que os políticos (as renas que lhe comandam a vida) se entendam para bem do país, dos portugueses e dos mais novos.

 

E é exactamente sobre os mais novos que recai um dos seus desejos mais fortes: "Quero que todos os meninos tenham reforma". Decidido como é, o Pai Natal até já tem uma solução: "A minha fórmula para salvar a reforma passa por os políticos pensarem mais no povo do que neles. Agora, se continuarem a não se entender, qualquer dia já não há reforma nem para nós", diz este verdadeiro Pai Natal que sente uma certa angústia. "As pessoas estão tristes, frustradas. É uma mistura de tudo". Também por isso vale a pena o esforço de alimentar o sonho dos grandes protagonistas do amanhã: as crianças. Por elas tudo vale a pena!

 

(Publicado no DE - edição de 2/12/2011: Texto: Mafalda Avelar; Fotos: Paula Nunes)

 

 

 

 

 

Este post também foi publicado no blog:www.livrosemanias.blogs.sapo.pt

publicado por Mafalda Avelar às 17:02
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